domingo, 17 de julho de 2011

ÉpocaSP : A última noite do primeiro hotel cinco estrelas da cidade

Poucos hóspedes, muitas lembranças e uma esperançosa troca de cartões na noite de despedida do hotel Ca’d'Oro

por Camilo Vannuchi


“Dos 450 funcionários que trabalhavam aqui em 1979, restaram 91”, diz o maître Josuel Fonseca dos Santos
Passei a noite no apartamento 865 do Grand Hotel Ca’d’Oro. Depois de mim, ninguém mais pisará neste carpete escuro ou descansará os olhos no papel de parede cor de areia. O frigobar, revestido em fórmica marrom, por certo será aposentado, enquanto as duas paisagens coloniais do quarto seguirão daqui para um depósito. Neste sábado, 19 de dezembro de 2009, assim que as chaves dos 22 apartamentos ainda ocupados forem entregues, o Ca’d’Oro fechará as portas após 56 anos de atividade – inicialmente como restaurante, fundado em 1953 na Rua Barão de Itapetininga, e desde 1956 como hotel, instalado na Rua Basílio da Gama e transferido em 1964 para este endereço, o número 129 da Rua Augusta. Os proprietários anunciam uma longa reforma, ainda sem investidores, necessária à reabilitação do hotel para a Copa de 2014. Nos bastidores, corre a versão de que o terreno foi incorporado pela Brascan, que deve demolir o edifício.
Primeiro cinco estrelas da cidade, o Ca’d’Oro foi o hotel preferido do ex-presidente João Figueiredo. Di Cavalcanti ofereceu telas de sua autoria em troca de hospedagem. Luciano Pavarotti exigiu uma cozinha em sua suíte quando esteve aqui, nos anos 1990. Anita Louise Regina Harley, controladora das Casas Pernambucanas, mora há mais de vinte anos no 13º andar. O ministro da justiça, Tarso Genro, tem comentado que não sabe mais onde se hospedará quando vier a São Paulo. Mais do que nunca, é a nostalgia que percorre estes salões. “Quando entrei no Ca’d’Oro, havia quatro torres e 290 apartamentos. Hoje, há apenas uma torre e menos de cem suítes em uso”, diz o maître Josuel Fonseca dos Santos, 30 anos de casa. “Dos 450 funcionários que trabalhavam aqui em 1979, restaram 91.”
A falta de pessoal se fez notar em minha chegada: às 20h de sexta-feira, ninguém se dispôs a me acompanhar até o quarto. “Feche a porta com o trinco para não ser perturbado pela arrumadeira”, dizia uma etiqueta sobre a maçaneta. O trinco estava quebrado. Antes de jantar, passei no bar. De trás do balcão, Ivander Fernandes, nove anos e meio de casa, me adiantou que havia apenas três mesas ocupadas no restaurante. Numa delas, indicou Giancarlo Bolla e sua esposa. “Ele trabalhou aqui e hoje tem um restaurante chamado Tambuíla”, disse, tropeçando no nome do La Tambouille. “Vou procurá-lo”, adiantou, e logo me estendeu um cartão: “Experiência em drinks, vinhos e champanhes. Inglês fluente e noções básicas de espanhol”. Às 22h, escolhi uma mesa. Fundado por Fabrizio Guzzoni, imigrante nascido em Bergamo, no norte da Itália, o Ca’d’Oro foi responsável por introduzir o carpaccio e transformar a polenta em prato sofisticado por aqui. O cardápio sugere rabada, dobradinha, pato, codorna e o famoso bollito misto a piemontesa (cozido de carne com legumes). “Quando fui maître do Ca’d’Oro, nos anos 1960, Fabrizio recebia pessoalmente os clientes”, diz Bolla. “Foi a primeira vez em que o paulistano adotou o hábito de sair para jantar em um hotel. O local foi vítima da decadência da região.”
Hoje, posso dizer que fui o último hóspede a tomar café da manhã no Ca’d’Oro. Entre 10h e 10h30, não havia ninguém no salão além de mim e dois garçons. Ao fazer o check-out, com o lobby imerso em uma inevitável atmosfera de velório, tive a sensação de ouvir o recepcionista me dizer “Volte sempre”. Mas foi apenas impressão.

Acima, em sentido horário, as três torres desativadas no número 129 da Rua Augusta, o barman Ivander Fernandes à espera de clientes e o marasmo mal disfarçado do aprendiz de copeiro Manoel Oliveira e do mensageiro Antonio dos Reis Neto
Fonte: Revista Época SP


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